domingo, 26 de fevereiro de 2017

Mãe, Pai, Filhos, a base da família

     O ser humano possui a necessidade de pertencer a um grupo. Ser considerado “diferente” ou “não fazer parte de um grupo” gera um sentimento angustiante que muitas vezes dá-se o nome de solidão. Sem entrar na semântica de “solidão”, mas sim a usando de forma meramente ilustrativa, a solidão faz com que o Ser humano, consciente ou inconscientemente se envolva em situações ou sentimentos que limitam o seu crescimento. Bert Hellinger desenvolveu um trabalho, conhecido hoje como Constelação Familiar, onde explica sobre esta necessidade de Pertencimento com uma visão filosófica a respeito da Vida.

      A constelação familiar tem sido utilizada como instrumento de cura para muitas pessoas. Embora o próprio Bert Hellinger afirme que não se trata de ferramenta, método, abordagem e muito menos terapia, é visível a eficácia terapêutica nas pessoas que passam pelo processo da constelação. A partir do contato com a filosofia sistêmica e o trabalho vivencial da constelação familiar, a pessoa amplia a consciência a respeito de suas questões pessoais e muda a imagem interna que possui sobre sua família e seu papel dentro desta família.

A Importância do Pai e da Mãe e as lições que vêm deles

                
     
A família tem sido alvo de estudos das mais diversas linhas: terapêutica, filosófica, religiosa, antropológica, etc. Diversas teorias surgiram ao longo destes anos, e algumas delas se contradizem, trazendo confusão e dúvidas. Uma coisa é certa: Pai e Mãe tem influência total sobre os filhos, seja consciente ou inconscientemente, através da estrutura psicológica, ou da genética.

       Dentro da visão sistêmica de Bert Hellinger, a questão “Pais” é muito simples: Eles deram a vida a seus filhos. São as pessoas que a Vida (esta energia criadora da qual ainda pouco se compreende) escolheu para que você recebesse um corpo físico e pudesse realizar seu propósito na Terra. Portanto, todo o resto faz parte do seu aprendizado, daquilo que você se propôs a aprender, realizar e cumprir. Esta é ideia básica quando falamos em “pais e filhos” dentro da constelação familiar.

     “Ao dar a vida aos filhos [...] os pais dão-lhes, com a vida, a si mesmos, tais como são, sem acréscimo e sem exclusão. E por esta razão os filhos [...] não somente têm os seus pais, mas eles são seus pais.” (Bert Hellinger, 2008, p.36)

     Sophie Hellinger fala em seus seminários sobre os “acordos” que se faz com os pais antes de nascer. Por exemplo: se alguém se propõe a aprender a lidar com a rejeição e se amar, talvez ela “faça um acordo” com a pessoa que será sua mãe, para que esta a deixe num orfanato, ou que, de alguma forma não esteja presente em sua vida.  Este tipo de pensamento mostra o quanto a constelação possui um caráter filosófico, aonde as ideias vão além dos conceitos puramente materiais que a ciência atual pode explicar.

      Se continuar a seguir a linha de pensamento de Sophie, neste exemplo, esta mãe cumpriu seu papel e, portanto, a pessoa abandonada pode ser grata a ela, pois foi através deste “acordo cumprido” que pôde entrar em contato com as experiências, mesmo dolorosas, que fizeram sua alma crescer e aprender a amar a si mesmo, realizando assim o seu propósito.
               
Crianças Difíceis

“Nenhuma criança é difícil. O sistema é difícil. Algo em sua família encontra-se fora de ordem”.

   Existe algo que Bert Hellinger chama de “amor cego”, este é um amor que traz emaranhados sistêmicos. Ou seja, o filho, por amar seus pais em sua alma, não aguenta o sofrimento dos pais, então os imita como se quisesse dividir a “carga”. Por exemplo, se a mãe está deprimida, ou se o pai bebe demais, os filhos se sentem pressionados a encontrar alguma maneira de igualar o sofrimento, talvez fracassando na vida. Quando a dor dos pais é cegamente equilibrada pela dor dos filhos, vai passando de pessoa a pessoa, de geração em geração, perpetuando assim o sofrimento ao invés de curá-lo.

   A dinâmica oculta nas crianças difíceis é que quando um sistema familiar possui uma carga opressiva, algo que os demais membros da família negam ou excluem, esta criança, com um “amor cego” inclui novamente no sistema aquilo que foi excluído por todos. O que ajuda os pais nesta situação? Quando reconhecem o seu destino e também o destino do filho como um movimento da consciência sistêmica que os conduz. Este destino é mais do que um destino apenas individual e pessoal. Vai muito além da família em questão, alcançando assim também o seu entorno, atuando de modo curativo. Torna-os modestos e humildes, envolvendo-os com uma solidariedade amorosa e humana.

Pai Ausente e suas consequências

“Se eu como filho não posso tomar meu pai, então estarei perdido e não poderei sustentar nenhuma relação duradoura, nem alcançar o êxito.” Bert Hellinger

   Atualmente se fala muito a respeito do “Pai Ausente”: aquele que abandona a mãe com o filho e nunca mais volta; ou então, o que se separou da mãe e constituiu nova família; ou ainda o “pai ausente” porque não assumiu o filho. E por aí segue. Porém, se verificar a história da humanidade, a ausência da figura paterna é muito antiga, apenas mudando o enredo.

  Esta é uma geração pós-guerra, com netos e talvez bisnetos dos guerrilheiros. Quantos homens foram perdidos na guerra? Quantos pais ausentes? E os filhos que ficaram sem estes pais não puderam muitas vezes nem chorar esta perda, porque eles tinham que trabalhar para comer, ajudar a mãe, os irmãos, ou mesmo fugir para sobreviver. Esses mesmos “filhos sem pai” agora se tornaram pais, mas, inconscientemente não olham para seus filhos, porque sua alma ainda busca pelo pai perdido. Assim o ciclo de Pai Ausente se perpetua e se repete nas gerações. Bert Hellinger vai além da história, ele questiona: “quem é a pessoa mais excluída nas famílias? O pai”.

   Dentro do trabalho das constelações, o Pai é aquele que direciona o filho para o mundo. Enquanto a mãe traz o alimento, a nutrição, o amor; o pai é o sucesso, realização, plenitude, autoridade, firmeza, é o “não” que muitas vezes é difícil de dizer, é independência. Sua ausência pode causar vários emaranhados sistêmicos, porém os principais estão relacionados aos vícios de todos os tipos. Inclusive Bert diz que aqueles profissionais que trabalham em organizações de ajuda a adictos, somente podem auxiliar quando dentro de si, a figura pai está resolvida.

O que faz os filhos felizes?

   Bert Hellinger responde: “Quando os pais são felizes com os filhos. E como isso acontece? Quando no filho respeitam, amam e concordam com o outro membro do casal. Se fala muito de amor, mas qual é modo mais bonito de amar? Quando me alegro com o outro exatamente como ele é”.

   O seu amor ao filho como pais apenas continua e coroa seu amor como casal, porque este vem antes daquele.  Então quando o amor recíproco dos parceiros flui do fundo do coração, também flui do fundo do coração o seu amor de pais pelo filho. Tudo o que o homem e a mulher admiram e amam em si mesmos e no parceiro, também admiram e amam nos filhos. E tudo que os irrita e incomoda em si mesmos e no parceiro, também os irrita e incomoda no filho. (Bert Hellinger, 2008, p.43)

  Se um dos pais passar, direta ou indiretamente, esta mensagem ao filho: “não seja como seu pai/mãe”, o filho em geral seguirá este genitor excluído, como uma lealdade sistêmica. Isso se demonstra muitas vezes quando o filho repete comportamentos do genitor excluído. Por exemplo, se a mulher se casa com um homem alcóolatra, e esta teme que seu filho se torne igual ao pai, qual seria a solução? Olhar internamente para este filho e dizer: “aceito que você se torne alcóolatra como seu pai”.

Movimento Interrompido aos Pais

    Em muitas famílias a criança é separada precocemente da mãe, quando, por exemplo, precisa ir ao hospital e a mãe não pode visitá-la. Às vezes também ocorre uma separação imediatamente após o nascimento, quando, por exemplo, a criança nasce prematura e precisa ficar na incubadora. No caso de cesariana ocorre igualmente uma separação precoce.

     A criança sente a separação como uma grande dor. Ela se modifica após este evento, pois a dor se transforma em raiva ou desespero. Quando a mãe retorna, a criança afasta a mãe de si, pois se lembra da dor que sentiu. Assim, talvez, a mãe acredite ter falhado de algum modo e igualmente se retrai. Desta forma, os dois permanecem separados.

  Tal fato pode ter influência ao longo da vida. Quando ocorreu um movimento interrompido, principalmente em relação à mãe, por vezes também em relação ao pai, mais tarde a criança não se aproxima mais das outras pessoas. Sente medo da proximidade. Sempre que se aproxima de alguém se lembra da dor passada e interrompe o movimento de aproximação. Retrai-se, dá um passo para o lado, afasta-se, volta para o ponto de partida sem realmente ir adiante ou se aproximar. 

    Qual a solução neste caso? Retorna-se para a situação onde o movimento foi interrompido e o conclui. Isso pode acontecer através de um representante para esta mãe. Este representante (que pode ser um terapeuta) recebe a criança em seus braços e não larga. Quando ele desejar afastar-se, o representante o segura ainda mais forte, até que se acalme e relaxe em seus braços. Existe um trabalho chamado "abraço de contenção", onde o objetivo é muito semelhante. Muitas crianças hiperativas se tornam mais tranquilas com o abraço e contenção.

Referências Bibliográficas

HELLINGER, Bert. O Amor do Espírito. Goiânia: Atman, 2008
HELLINGER, Bert. As Ordens do Amor. São Paulo: Cultrix, 2001
HELLINGER, Bert. A Simetria Oculta do Amor. São Paulo: Cultrix, 1998
HELLINGER, Bert. Felicidad que Permanece. Barcelona: Rigden Institut Gestalt, 2006
HERMOSILLO, Rosa Doring. Constelaciones Familiares y Abrazo de Constención. México: Gudiño Cícero S.A., 2007
RUPERT, Franz. Simbiose e Autonomia nos Relacionamentos. São Paulo: Cultrix, 2010

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Tipos de nascimento e a influência sobre seu comportamento


Você sabia que a forma como você nasceu pode influenciar significativamente seu comportamento, crenças e estilo de vida? Compartilho abaixo um pequeno resumo extraído do livro Renascimento de Fanny Van Laere, que mostra as possíveis crenças e comportamentos relacionados com os partos mais comuns.

O trabalho terapêutico do Renascimento têm como um dos objetivos, rastrear o modelo de nascimento, fazer o link com as crenças ou comportamentos adotados e ressignificar a forma como a criança interpretou estes modelos. 

"Embora cada situação seja única e cada bebê tenha seu próprio jeito de interpretar a realidade, um tipo específico de nascimento tem a tendência de criar padrões semelhantes. A seguir, apresentamos diferentes tipos de nascimento, com os possíveis padrões que a pessoa pode desenvolver."

CESARIANA

- Encontram dificuldades para tomar decisões e têm problemas para receber ajuda, mas, ao mesmo tempo, precisam desesperadamente.
- Insistem em fazer coisas por si mesmo (como forma inconsciente de provar que são capazes de fazer a passagem pelo canal do parto). Ao mesmo tempo, tendem a atrair pessoas ou circunstâncias que se interpõe em seu caminho e podem acabar necessitando de alguém para ajudá-lo ou “resgatá-lo”.
- Têm dificuldade para completar/terminar as coisas.
- Precisam muito de expressões físicas de afeto ou, ao contrário, têm repulsa ao toque.
- Sentem-se abandonados em momentos cruciais.
- Têm medo de facas e de instrumentos cortantes ou, ao contrário, têm fascínio por eles.
- Criam interrupções frequentes, especialmente nos relacionamentos. Podem criar interrupções em seu processo de Renascimento até superar esse padrão.

Cesariana Planejada

- Sentem-se interrompidos e não respeitados e se ressentem por isso.

Cesariana de Emergência

- Têm medo de ficar preso.
- Carregam pensamentos do tipo “Eu não posso fazer as coisas por mim mesmos. Preciso que me ajudem..”

PARTO ESTAGNADO

O parto pode ficar estagnado porque o processo de nascimento foi inibido pelos profissionais ou por qualquer pessoa presente, ou porque a mãe tem medo, e inconscientemente, o está retendo. Infelizmente, esta situação frequentemente resulta em um cesariana ou em parto com fórceps devido à incompetência dos profissionais ou à incapacidade da mãe de superar seu medo.

- Sentem-se contidos e controlados.
- Sentem que não podem ter o que querem, quando querem.
- Sentem-se irritados quando são retidos.
- Carregam pensamentos do tipo: “Nada está pronto para mim.” “As pessoas estão sempre tentando me reter.”

FÓRCEPS OU VENTOSAS

O uso do fórceps ou ventosas no nascimento, além de, possivelmente, causar enxaquecas e problemas de visão, tende a criar um padrão de luta e de esforço na vida. A pessoa também pode ter tiques nervosos em seu rosto. As marcas dos fórceps, às vezes, aparecem e desaparecem durante a sessão de Renascimento.

- Lutam com a vida.
- Receber ajuda é doloroso.
- Não gostam de ser controlados e manipulados.
- Procuram ajuda, mas têm medo de recebê-la.
- Têm medo da dor. Precisam estar no controle.
- Criam situações nas quais querem ser ajudados por outras pessoas.
- Carregam pensamentos do tipo: “Não posso fazer sozinho..”

CORDÃO UMBILICAL AO REDOR DO PESCOÇO

Isso geralmente ocorre quando o bebê absorveu muita pulsão de morte durante a gravidez e parece estar tentando cometer suicídio estrangulando a si mesmo. Os padrões são mais fortes se o cordão estiver enrolado de forma apertada ao redor do pescoço.

- Têm dificuldade de estar encarnado em um corpo físico.
- Criam obstáculos na vida e sabotam a si mesmos.
- Muitas vezes, sentem-se “estrangulados” em seus relacionamentos.
- Reprimem suas emoções.
- Têm medo da intimidade.
- Associam risco e intensidade com se sentirem vivos.

BEBÊ CIANÓTICO

Neste caso, o bebê não respira ao nascer. É comumente chamado de “bebê azul” e geralmente acontece porque o bebê está em um estado de choque fisiológico devido ao corte prematuro do cordão umbilical ou a um trabalho de parto muito difícil. Muitas vezes, o médico ou a parteira lhe dá um tapa a fim de que comece a respirar.

- Têm medo de estar em um corpo físico.
- Têm medo de avançar.
- Têm pulsões de morte.
- Têm padrão de escassez (por falta de oxigênio).
- Têm medo de serem feridos.

PARTO PREMATURO

- Desejam intensamente progredir e, ao mesmo tempo, têm medo do que virá.
- Não se sentem preparados.
- Sentem-se indefesos. Podem compensar essa sensação não aceitando a ajuda de ninguém e fazendo tudo por conta própria.
- Necessitam intensamente de afeto
- Podem chegar a sentirem-se extremamente vulneráveis.
- Normalmente, chegam cedo, ou tarde, como compensação.

INCUBADORA

- Sentem-se isolados e sozinhos.
- Têm problemas com a temperatura.
- Sentem-se fracos e indefesos.
- Têm medo do abandono.
- Têm forte conexão com máquinas ou tecnologia.
- Muitas vezes, passam por dois ciclos em seus projetos de vida (o primeiro para sair do útero, o segundo para sair da incubadora).

PARTO INDUZIDO

- Sentem que não são respeitados.
- Irritam-se facilmente.
- Têm dificuldades para iniciar as coisas.
- Precisam ser “induzidos” por alguém ou pelas circunstâncias para agir.
- Sentem ressentimento quando são “empurrados”.
- Não sabem o que querem.

PARTO HIPERMADURO

- Estão frequentemente atrasados ou têm problemas com o tempo.
- Sentem que as pessoas não podem suportar a sua presença.
- Têm medo e serem absorvidos.
- Sentem que não estão preparados.
- Se o parto foi doloroso para a mãe por qualquer razão, sentem que ferem as pessoas.
- Têm medo de completar as coisas.
- Sentem que não há saída.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

DAR E TOMAR NAS RELAÇÕES


     Uma das Ordens do Amor que Bert Hellinger observou nos sistemas é o Dar e Tomar nas relações. Todas as relações começam com este movimento. Esta Ordem é mais sutil e muitas vezes confundem-se com conceitos religiosos ou outros paradigmas da nossa sociedade, principalmente no que se refere ao termo Tomar.

     Usamos Tomar ao invés de Receber, pelo fato de que para se Tomar algo ou alguém há a necessidade de ação da pessoa que deseja tomar, de “ir em direção a”. Por exemplo, Tomar a Mãe: vemos numa constelação que o filho tomou sua Mãe quando este se movimenta em direção à ela. Portanto aquele que Dá estende os braços e oferta algo, mas o outro precisa do movimento de “ir em direção a” este algo, ou seja, Tomar. E é aí que muitas vezes ocorre o emaranhado sistêmico, pela ausência deste movimento de Tomar.

     A Ordem Dar e Tomar, ou Equilíbrio, como algumas pessoas denominam, respeita a Hierarquia por Tempo, ou seja, aquele que entrou primeiro no sistema Dá para quem entrou depois. O que entrou por último Toma daqueles que vieram antes. Portanto o pai dá para o filho, que dá para o filho; assim como o irmão mais velho dá para o que chegou depois e assim por diante. Este Dar não diz respeito apenas a coisas materiais e sim a tudo: a Vida, cuidados, valores, bens materiais, impressões, crenças (conscientes ou não), etc.

     Com a dinâmica do Dar e Tomar surge um sentimento que Bert Hellinger chama de Culpa e Inocência. Estes sentimentos atuam em conjunto com as três Ordens do Amor (Pertencimento, Dar e Tomar e Hierarquia). Para entender este conceito é importante eliminar o que foi aprendido a respeito destas duas palavras para não haver confusão. Dentro da Ordem Dar e Tomar, a Culpa é experimentada como obrigação, e Inocência como liberdade ou reivindicação.

     Bert Hellinger diz que “quem dá tem o direito de reivindicar e quem toma se sente obrigado. A reivindicação de um lado e a obrigação de outro constituem para toda relação o modelo básico de culpa e inocência. Aqueles que dão e aqueles que tomam não descansam até que se chegue a um equilíbrio. Isto significa que aquele que toma tem que ter a chance de dar e aquele que dá tem igualmente a obrigação de tomar”.

     Portanto, quando Tomamos algo, estamos em dívida com o doador. Esta dívida é sentida como uma pressão ou desconforto. Muitos não conseguem suportar esta pressão/desconforto e por isso evitam Tomar ou Tomam muito pouco. Preferem permanecer como Doadores. Porém, agir assim gera emaranhados sistêmicos, desordem e normalmente é sentida como um vazio interno ou descontentamento constante.

     Por exemplo: é comum perceber que pessoas com estados depressivos apresentem dificuldades no Tomar, principalmente quando se trata de Tomar algo de um dos pais; posteriormente esta postura se volta para o mundo. Elas trazem muitas justificativas como: o que receberam não foi suficiente, que tiveram uma infância infeliz ou colocam vários defeitos na pessoa que dá. No final o resultado é o mesmo: desordem sistêmica e ausência no Tomar.

     Aquele que evita Tomar mantém-se na postura de Inocência. Geralmente a pessoa que fica emaranhada na Inocência quando se ouve, por exemplo, que ela “prefere Dar a Tomar”. É como se inconscientemente dissesse: “é melhor você ficar devendo do que eu”. O que acontece é que quem fica nesta postura de apenas Dar não consegue manter um relacionamento saudável, pois não Toma o outro e, portanto não cria vínculo.

     Acontece em alguns casos de relacionamento de casal ouvir frases do tipo: “Eu me doei tanto, fiz tanto pelo meu parceiro(a) e ele(a) me traiu ou me deixou”. Isso ocorre pelo fato de que a pessoa se manteve na Inocência e não pagou o preço de Tomar o parceiro(a) em sua totalidade. Este parceiro(a) então, percebe inconscientemente que não consegue Dar e vai embora.

     A troca é a melhor forma de experimentar a inocência falada por Bert. Esta inocência ocorre quando retribuímos igualmente o que tomamos. Mas, como o Dar e Tomar respeita a Hierarquia, existem relações em que estra troca não é possível, como no caso dos pais falado anteriormente, neste caso, o agradecimento é chave para o Equilíbrio desta Ordem do Amor.

     O agradecimento é muito importante dentro desta dinâmica do Dar e Tomar. Muitas vezes não é possível retribuir o que se tomou, então a solução é agradecer. Segundo Bert, “quem agradece reconhece que está recebendo um presente sem saber se poderá retribuir. Aquele que dá acolhe este agradecimento e reconhecimento e o vê como uma dádiva”. Por exemplo, ao receber a Vida dos pais, a compensação ocorre quando esta pessoa se torna mãe/pai, ou se, por alguma razão não pode ou escolhe não ter filhos, a compensação acontece com um profundo sentimento de gratidão.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Aceitar os pais

   
"Quando o filho se queixa aos pais: “Vocês não me deram o suficiente, ou deram-me a coisa errada, portanto continuam a dever-me”, não consegue separar-se deles. Estas demandas vinculam estas crianças aos pais de tal maneira que se tornam incapazes de se deixam receber algo. Se os filhos se deixam tomar os pais como são recebendo também as coisas boas, esse ato de receber anularia as suas exigências e faria com que elas parecessem tolas. Do contrário, eles permanecerão atados aos pais, não podendo nem receber nem afastar-se.
    Aceitar os pais tem um efeito estranho: a separação. Não se trata de um mal, mas de algo que completa e aperfeiçoa o relacionamento com eles. Aceitar os pais significa: “Reconheço tudo o que vocês me deram. Foi o suficiente. O de mais que eu precisar, ganharei por mim mesmo, de modo que agora vou deixa-los em paz.” Significa ainda: “Recebo o que ganhei e, se deixo meus pais, continuo possuindo-os em mim.”.

    Num grupo, um médico muito bem-sucedido perguntou: “Que devo fazer? Meus pais se metem nos meus assuntos o tempo todo.” Eu lhe disse: “Eles tem o direito de meter o bedelho na sua vida quando quiserem! E você tem o direito de ir em frente e fazer o que achar melhor para você mesmo.”.
Filhos que não aceitam os pais estão constantemente procurando compensar esse déficit. Frequentemente, a busca de auto compreensão e iluminação não passa da busca de um pai ou mãe que ainda não foi aceito. A procura de Deus às vezes cessa ou toma rumo diferente depois de se aceitar um pai ou mãe. Muitas pessoas têm descoberto que sua “crise de meia-idade” resolveu-se logo que conseguiram tomar um dos pais até aí rejeitado.

    Nossos pais nos dão a vida e são os únicos capazes de fazer isso. Outras pessoas talvez deem alguma coisa além disso. Estritamente falando, não recebemos a vida de nossos pais – ela nos vem de longe por intermédio deles. Os pais são a nossa conexão com a fonte de vida, com algo além das falhas que porventura tenham. Ligados a eles, encontramos essa fonte mais profunda, que encerra muitas surpresas e mistérios. Uma coisa bonita acontece quando as pessoas observam seus pais e reconhecem neles a doente da vida. O amor exige que quem recebe reverencie o dom e o doador. 

    Quem ama e honra a vida, implicitamente glorifica e ama quem a dispensa. Quem despreza ou desmerece a vida, não a respeitando, amesquinha os que as dão. Quando as pessoas recebem e reverenciam o dom e o doador, erguem bem alto o presente até que rebrilhe; e, embora esse presente passe por meio delas àqueles que seguem, o doador continua banhado em sua luz.

     Quando sentimos que nossos pais nos devem alguma coisa, temos a imagem do que possa ser. É a imagem do bom pai ou da boa mãe. Aceitar os pais significa reservar a essas imagens benignas um lugar em nossos corações e permitir que façam ali boas obras. Trata-se de uma opção aberta à maioria das pessoas, mesmo quando foram feridas pelos pais. Aceitar os pais não quer dizer negar as coisas negativas, mas permitir a nós mesmos tocar as profundezas de seus corações, lá onde sofrem amargamente ao ver os filhos às voltas com o mesmo padrão em que estiveram enredados. Quando as pessoas conseguem atingir as profundezas do coração doa pais, estão mudadas e mudam também os pais, por ressonância.


     Sem dúvida, que tudo é mais fácil quando nosso pai ou mãe realmente demonstra essa bondade, e a maioria deles de vez em quando o faz. Porém, temos a possibilidade de contemplar os pais à luz do contexto de seu destino. Percebemos seus fracassos, seus sofrimentos e decepções, entregamo-los a seu fado para que lidem com ele como melhor entenderem e reconhecemos o nosso lugar na hierarquia familiar. Para além disto, atingimos o mistério mais amplo da vida, que flui através de nós."

Extraído de A Simetria Oculta do Amor, por Bert Hellinger

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Constelação Individual com Bonecos

Compartilho uma pequeno texto extraído do livro Muñecos, Metáforas y Soluciones, de María Colodrón, especialista em Constelação com Figuras.

"O desenrolar de uma constelação individual pode ocorrer de distintas formas: a partir de visualizações, mediantes âncoras de solo (papéis, pedaços de feltro, sapatos, etc.) e com bonecos ou outros objetos de representação ( pequenas pedras, fotos, etc).

O trabalho com bonecos, graças a sua versatilidade, pode ser aplicado de numerosas formas e com diversos objetivos. Porém, o  principal objetivo é ampliar a visão da pessoa que está constelando a respeito de sua questão (os humanistas chamariam de Tomada de Consciência, Bert Hellinger, denomina “Perder a Inocência”), de forma que aumente o grau de liberdade nas escolhas cotidianas.

Os bonecos são uma ferramenta que permite representar visual e espacialmente distintos aspectos da realidade subjetiva do cliente.  Servem para avaliar o estado atual da pessoa, os conflitos expressados e não expressados, assim como a imagem interna do problema e de suas tentativas de solução até o momento.

Em seguida exemplifico um caso terapêutico utilizando os bonecos.  O cliente é um homem de 45 anos, divorciado há muito tempo, que traz a demanda: “Necessito ajuda para romper com minha amante, porque me dei conta que estou ferindo a mim mesmo”.

Abaixo segue a primeira imagem interna a partir do posicionamento dos bonecos:



A imagem mostra vários aspectos que demonstram desordem tanto no sistema de origem quanto no atual:

- O cliente está posicionado na mesma linha que seus pais, sendo ele o primeiro da fila, assim sendo, forma com sua mãe um casal, enquanto que o pai se encontra distante e de costas para eles;
- Sua ex esposa se encontra posicionada na frente, no espaço do “futuro” e dentro do campo de visão, como se ficasse um assunto pendente;
- A amante se encontra à direita, na periferia do seu campo visual, olhando para fora (chama a atenção que este posicionamento é semelhante à posição de seu pai).

A partir desta imagem podemos observar quais as dinâmicas ocultas que estão atuando demonstrando que o cliente não está disponível para um relacionamento com alguém também disponível.  Isso é claramente verificável quando um novo personagem entra na configuração: uma nova parceira. Segue imagem abaixo:


A imagem fala por si só. O cliente não olha para a futura parceira. A partir deste momento o caminho de solução tomado pelo facilitador foi encerrar o assunto pendente com sua ex esposa, explorar a relação com seu pai e trabalhar o respeito para com sua mãe.

Existem significados espaciais praticamente universais, quer dizer, compartilhadas pela maioria das pessoas e culturas. Por exemplo, “à frente” costuma ser associado ao “futuro” e “atrás” com o passado; da mesma forma que, o movimento da esquerda para a direita significa avanço (assim como os ponteiros do relógio), e o contrário como retrocesso.  Em relação à verticalidade; ideias como espiritual, estar ausente ou “nas nuvens”, costumamos apontar com os movimentos ascendentes. Ao contrário, com movimentos descendentes, se encontra o corporal, os obstáculos. Olhar para baixo, costuma associar-se a estar deprimido, ou sobrecarregado (ex. olhar para o chão nas constelações, costuma indicar a relação com um “morto”).

Também a relação espacial entre dois elementos está cheia de significados: se está perto, ou longe, se estão frente a frente ou de costas um para o outro. Por isso, a disposição dos bonecos no espaço pode representar de forma clara e ampla, estados emocionais, atitudes pessoais diante de temas arquetípicos, como “futuro”, “destino”, “doença”, “pai/mãe”, etc.

Como é possível perceber, os bonecos permitem olhar os problemas a partir de uma nova perspectiva, já que novas conexões e analogias são reconhecidas no momento da configuração. Um novo mundo de crenças ou paradigmas é formado, facilitando o desenvolvimento de atitudes emocionais e interpretações novas, e sugerindo possibilidades de solução que até então não eram acessadas conscientemente."

Tradução livre por Aline Charane M.